Londres é a capital política do Reino Unido, mas também é sua capital literária. Uma proposta para alguns roteiros a pé com tema literário em Londres. Os lugares literários de Londres são centenas. Vamos tentar descobrir alguns dos mais significativos com esses roteiros a pé pelos diferentes bairros de Londres.
A Londres de William Shakespeare
O início da carreira de William Shakespeare está ligado ao bairro de Shoreditch. Esta área, que hoje é conhecida pela vida noturna, abrigava desde a Idade Média um importante mosteiro dedicado a São João Batista.
Com a dissolução das ordens religiosas por obra de Henrique VIII, em 1536 o mosteiro foi desocupado, tornando-se uma das chamadas liberty: os mosteiros, de fato, não estavam sujeitos às leis normais e essa prática continuou a ser aplicada em suas áreas mesmo após elas não serem mais de competência das ordens religiosas. As liberty atraíam duas categorias de pessoas: aqueles que viviam à margem da lei e os artistas, que aqui não podiam ser censurados.

Assim, ao longo da atual Curtain Road (que toma o nome do muro cortina do mosteiro de São João Batista), surgiram dois teatros concorrentes: o Curtain Theatre e o The Theatre. The Theatre era a sede do Lord Chamberlain’s Men, a companhia teatral em que Shakespeare era autor e ator. O filho do proprietário, Richard Burbage, que era o ator principal, interpretou aqui os papéis de Hamlet, Otelo e Rei Lear. Quando o contrato de aluguel da área estava para vencer, houve uma disputa entre os proprietários e os Lord Chamberlain’s Men. O teatro foi temporariamente fechado e a companhia teve que se hospedar no Curtain Theatre.
Burbage, temendo perder o teatro, organizou à noite uma equipe de homens que o desmontaram peça por peça e o transferiram para Southwark. E assim nasceu o Globe Theatre.

Globe Theatre
A área foi escolhida porque estava fora da jurisdição da City, que proibida os teatros. Ao lado do local original do Globe, na atual Park Road, ficava o concorrente Rose Theatre, cujas fundações podem ser vistas em tours guiados. Hoje é possível visitar o Shakespeare’s Globe Theatre, uma fiel reconstrução do teatro do século XVII, que fica perto do original, e talvez reviver a atmosfera dos teatros elisabetanos assistindo a uma de suas apresentações de verão.
Por essa vocação como bairro de teatros, muitos atores moravam em Southwark. A paróquia deles era a Southwark Cathedral, originalmente a igreja gótica mais antiga de Londres (século IX d.C.). Assim, cerca de metade dos atores listados no First Folio, a primeira edição impressa das obras de Shakespeare, é confirmada nos registros da igreja, assim como o próprio Bardo, a quem é dedicado um monumento no interior. Em Southwark Cathedral está sepultado Edmund Shakespeare, irmão de William, também ator.

Os bairros de Bloomsbury e Fitzrovia: Virginia Woolf e Charles Dickens
Perto do British Museum está o bairro de Fitzrovia, historicamente associado ao grupo de artistas boêmios que o habitava no início do século XX. A mais famosa era Virginia Woolf, que morou entre 1907 e 1911 no número 29 da Fitzroy Square (onde anteriormente tinha vivido o dramaturgo George Bernard Shaw). Virginia Woolf, junto com os irmãos Thoby e Adrian, fundou justamente nessa casa o Bloomsbury Group, uma associação de artistas originários da Universidade de Cambridge e famosos por seu estilo de vida dissoluto.
Havia um ditado que identificava esse grupo: casais que vivem em praças e têm relacionamentos triangulares. De fato, as belas praças quadradas caracterizam essa área e a própria Virginia Woolf também morou no número 46 da Gordon Square e no número 52 da Tavistock Square. Nesse último apartamento, ela escreveu algumas de suas obras mais famosas, incluindo Orlando e As Ondas.
O lugar onde os artistas da área costumavam ir para beber (quase nunca com moderação) era a Fitzroy Tavern, na Charlotte Street. Esse pub era particularmente popular entre os anos 20 e 40 do século XX e contava entre seus clientes habituais George Orwell, Dylan Thomas e o satanista Aleister Crowley, que também inventou um drink para o pub. No final dos anos 30, alguns artistas passaram a frequentar o pub próximo Wheatsheaf, na Rathbone Place. Tanto a Fitzroy Tavern quanto o Wheatsheaf ainda são muito populares hoje em dia e continuam a transmitir as atmosferas de seu período boêmio.
Na bela Doughty Street, no número 48, está o Charles Dickens Museum, situado na única casa londrina que sobreviveu dentre todas onde o escritor viveu. Aqui Dickens escreveu Oliver Twist e Nicholas Nickleby e presenciou a morte da cunhada Mary Hogarth, com apenas dezessete anos. Esse episódio, que o perturbou particularmente, foi contado através da morte de Little Nell no romance The Old Curiosity Shop. Em Londres há muitos locais ligados à vida e obras de Dickens e o Museu também organiza walking tours temáticos nos locais de alguns romances.

O bairro de Chelsea: Oscar Wilde
O aristocrático bairro de Chelsea acolheu muitos artistas e, naturalmente, entre eles também há inúmeros escritores. No número 34 da Tite Street, entre 1884 e 1895, viveu Oscar Wilde e aqui escreveu suas obras-primas O Retrato de Dorian Gray e A Importância de Ser Prudente. Esta casa, porém, marcou também o início de sua ruína: durante um jantar realizado aqui, Wilde conheceu seu futuro amante, Lord Alfred Douglas. O pai, o marquês de Queensberry, desgostoso com o relacionamento, processou Wilde sob a acusação de indecência e o escritor foi condenado e preso, tendo que vender a casa para pagar parte das despesas legais.
A rua mais significativa de Chelsea para seus moradores é Cheyne Walk. Sua sequência de casas elegantes com vista para o Tamisa recebeu muitas celebridades, entre elas os pintores Rossetti e Turner e os Rolling Stones Mick Jagger e Keith Richards. Entre os escritores que viveram lá estão George Eliot (no número 4), Bram Stocker (no 27) e Ian Fleming, o criador de James Bond, que morou com a mãe nos números 118-119 (onde no passado viveu o grande pintor JMW Turner) e depois mudou-se para as Carlyle Mansions, o condomínio situado entre os números 50 e 60, onde também viveram o poeta TS Eliot e Henry James. No seu apartamento das Carlyle Mansions, Fleming escreveu a primeira história de James Bond, Casino Royale.
As Carlyle Mansions devem seu nome a uma personagem ilustre que lá residiu até sua morte no número 24 da Cheyne Walk, Thomas Carlyle, escritor e ensaísta escocês do século XIX. A Thomas Carlyle’s House, onde Charles Dickens era um visitante frequente, está aberta ao público e vale a pena visitá-la para ter uma ideia de como eram essas belas town house.

A British Library
Por fim, um destino imperdível para os apaixonados por literatura é a British Library, um verdadeiro templo do conhecimento. No térreo encontra-se uma sala de exposição com alguns tesouros inestimáveis. Entre as obras literárias, e limitando-se aos escritores mencionados neste artigo, destaca-se o First Folio de Shakespeare, ou seja, a primeira coleção de todas as suas obras organizada por alguns amigos e colegas do Bardo logo após sua morte. Sem esta edição teriam se perdido dezoito trabalhos teatrais, entre eles Macbeth e A Tempestade. O formato prestigioso (Folio) era reservado para obras teológicas e históricas e é usado aqui pela primeira vez para uma obra literária.
Também é possível admirar manuscritos de Charles Dickens, de Oscar Wilde, de Ian Fleming e um caderno com um rascunho de Mrs Dalloway de Virginia Woolf, com um final diferente do da obra publicada.
A exposição da British Library abrange muitas áreas do saber. Ao lado da literatura, há partituras autógrafas de grandes compositores (entre eles Handel, Mozart e Mahler) até os Beatles; há mapas, textos sagrados iluminados, tratados científicos e históricos, desenhos anatômicos de Michelangelo e de Durer e desenhos de máquinas cênicas de Leonardo da Vinci. Não faltam códigos de leis, entre eles duas das quatro cópias sobreviventes da Magna Carta.


