Quem nunca passou, ao menos uma vez, por um voo com turbulência que resultou em um único pensamento: assim que eu descer do avião, não pego mais outro? Mas, na verdade, vieram muitos outros voos tranquilos que reacenderam a vontade de viajar.
O escritor do Theluxurytravelexpert sugere alguns truques para lidar com o medo de voar.
- Usar poucas companhias aéreas (no meu caso British Airways e KLM) para a maior parte das viagens, pois torna a experiência de voo mais previsível, acalmando meus nervos. O que ajuda muito é que a British Airways não só oferece um vídeo durante o voo para dar segurança aos passageiros ansiosos como eu, como sua tripulação profissional e altamente treinada usa sempre a mesma rotina para as comunicações com os passageiros. Por exemplo, a equipe da cabine de pilotagem sempre se dirige aos passageiros pelo interfone antes da decolagem e 40 minutos antes da chegada (independente da duração do voo), e a tripulação de cabine fala sempre depois da equipe de pilotagem. De certa forma, essa rotina previsível (que muitas vezes falta em outras companhias) me faz sentir muito mais confortável.
- Pode parecer polêmico, mas assistir a todos os episódios das séries Mayday ou Aircrash Investigation me ajudou a entender melhor por que voar é tão seguro hoje em dia (todas estão disponíveis no YouTube). Embora esses programas relatem os acidentes aéreos mais trágicos da história, o fazem de forma não sensacionalista, focando nos eventos que levaram a esses desastres e nas causas descobertas pelas investigações oficiais. Assim, aprendi que um dos meus maiores medos – uma colisão no meio do ar – é muito irracional, pois a maioria das aeronaves hoje tem tecnologia para evitar esse tipo de acidente.
- Li artigos no site Aviation Herald, que registra incidentes e acidentes diários na aviação civil. Este excelente site é mantido por Simon Hradeck, um especialista austríaco em segurança aérea. Ao ler o Aviation Herald e os comentários dos profissionais das companhias aéreas, percebi que a indústria da aviação é uma das mais seguras, com múltiplos níveis de proteção que impedem que o avião caia se algo der errado. Aprendi que os aviões podem voar por horas com um motor só, que incêndios na carga podem ser contidos e que fumaça na cabine, apesar de assustadora, é na maior parte inofensiva.
- Voar em Business ou First Class é na maior parte das vezes um privilégio e puro prazer. As cabines premium oferecem camas que se tornam totalmente planas, comida deliciosa e serviço excelente. Além disso, a experiência em solo é muito melhor, com check-in prioritário, filas rápidas na segurança e acesso a lounges. Para mim, a maior vantagem é que voar em Business ou Primeira Classe oferece um ambiente menos claustrofóbico, com suítes fechadas onde posso lidar tranquilamente e discretamente com o meu estresse sem ser incomodado e observado pelos outros. Para um passageiro nervoso, voar em Business ou First é muito melhor e diferente de voar na Econômica ou Classe Econômica, que muitas vezes traz o pior comportamento dos passageiros, aumentando significativamente o estresse e a ansiedade em toda a cabine.
- Eu costumava beber álcool e/ou tomar remédios para dormir durante o voo, com um único objetivo: adormecer o mais rápido possível para não enfrentar o voo consciente. Porém, aprendi do jeito mais difícil que isso não ajudava; os remédios e o álcool me deixavam mentalmente estressado e exausto (porque eu não conseguia dormir) e até desenvolvi alucinações internas por tomar muito remédio para dormir (vi muitas criaturas alienígenas verdes rastejando pelos assentos). Desde então, evito beber álcool ou tomar remédios em voo, o que me trouxe resultados positivos, não só para recuperar a tranquilidade durante o voo, como também para conseguir adormecer naturalmente por algumas horas na maioria das viagens longas.
- Viajar durante a noite piora meu medo de voar, provavelmente porque gosto de estar consciente do espaço ao meu redor olhando pela janela do avião, o que me traz tranquilidade. Por isso, procuro sempre evitar voos noturnos com olhos vermelhos, mesmo que muitas vezes não haja escolha (como nas rotas da Europa para os EUA, onde a maioria dos voos é noturna).
- Embora eu saiba muito bem que a turbulência não pode derrubar um avião (e nunca aconteceu), ela ainda me apavora a cada vez que ocorre. Só assistir a um vídeo como este no YouTube já me deixa suando frio. Eu sei que não deveria assistir a esses vídeos, mas não consigo controlar. Mesmo assim, acho muito reconfortante quando o comandante anuncia antecipadamente que cruzaremos uma área de ar turbulento, pois de certa forma a antecipação torna a turbulência mais suportável. Além disso, antes de voar, sempre dou uma olhada no site Turbulence Forecast, que oferece uma ferramenta que estima o quão turbulento poderá ser seu voo. Use isso não como motivo para cancelar ou mudar viagens, mas como uma forma de tornar a possibilidade ou ausência de turbulência mais previsível e menos assustadora.
- Quando possível, tento sentar-me direto sobre as asas do avião, pois essa parte normalmente experimenta níveis menores de turbulência: as asas ajudam a manter o voo suave, enquanto o ponto mais turbulento geralmente fica na parte traseira do avião, nas últimas fileiras próximas à cauda.
- Como já disse, voar sobre grandes massas de água – a centenas de quilômetros de um aeroporto alternativo – me deixa louco, pensando em cenários catastróficos que dificilmente acontecerão, como incêndio a bordo, falha nos sistemas de navegação, mau funcionamento dos radares meteorológicos na zona de convergência intertropical ou pane no motor de um bimotor. Porém, li bastante sobre voos sobre água e, por isso, adquiri um conhecimento básico sobre voos ETOPS sobre água, que são sujeitos a rigorosos requisitos (o que é um pensamento um pouco tranquilizador quando atravesso um oceano). ETOPS significa “Extended Twin Operations”, embora alguns brinquem dizendo “Motores giram ou passageiros nadam”. Como explicado nesta página informativa da Wikipedia, a certificação ETOPS é um processo rigoroso e dividido em duas fases, onde irregularidades levam imediatamente ao rebaixamento ou suspensão da certificação ETOPS de uma companhia aérea:
- Primeiro, a combinação da fuselagem e motores deve cumprir os requisitos básicos ETOPS durante a certificação do tipo. Testes podem incluir desligar um motor e voar apenas com o restante pelo tempo todo permitido para a rota alternativa, muitas vezes sobre o oceano. É preciso comprovar que a tripulação não fica excessivamente sobrecarregada e que a chance de falha do motor restante é mínima.
- Segundo, uma companhia que realiza voos ETOPS deve obter aprovação da autoridade de aviação do seu país, cumprindo procedimentos extras de engenharia e tripulação além dos regulares. Pilotos e equipe técnica devem ser qualificados e treinados especificamente para ETOPS.
- A única coisa que mais me ajudou a superar o medo de voar foi ter algo mais para focar durante o voo. Por isso comecei a tirar fotos e vídeos durante os voos e publicá-los no meu blog e canal do YouTube. O fato de eles terem se tornado populares complicou um pouco minha história, pois agora sinto mais motivação para publicar relatos e, assim, viajar ainda mais.
- Por fim, não voo com companhias aéreas que tenham baixo nível de segurança. Sempre evito voar com as empresas listadas na lista negra da União Europeia, que proíbe as aéreas inseguras. Também sempre busco informações sobre a reputação de segurança das empresas no site Airline Ratings. Apesar de saber que classificar companhias aéreas por segurança é um tema delicado, fico muito mais tranquilo quando minha aérea tem boa reputação nesse aspecto.

